[Antes do isolamento social | fevereiro 2020]

Projeto de exposição

                                                                    Elias de Andrade

Desenhos e deslocamentos - memória e objetos próximos

       A proposta para a exposição é a apresentação de uma parte da pesquisa de mestrado sobre desenho, deslocamento e memória, finalizada no segundo semestre de 2019. As obras são bidimensionais e serão fixadas nas paredes. Os lambes¹ “ADIANTE, BEM-VINDO e VENDE-SE / VENDIDO” serão fixados nas respectivas paredes, cobrindo-as de cima a baixo.

Entendo o desenho como a continuação de uma ação que não começa com o traço, há um conjunto preparatório para o traço em si. A memória de experiências é par­te desse conjunto e implica diretamente na escolha do que observar e no modo de faz­er. Muitas vezes, desenhar de observação, o que está por perto, remete a lembranças. Nesse caso o desenho é presente, passado e futuro.

       O desenho e suas tensões, assim como as ambiguidades entre mudanças de moradias que perpassam tanto o sujeito caminhante quanto o que ele desenha, foram motores para esta pesquisa. Os trabalhos apresentados são entendidos como um meio de dialogar sobre resistência frente ao modo desenfreado de viver, pautado pelo consumo, pela renda, por uma possível felicidade proporcionada por fatores externos. É uma resistência pela arte, pelo desenho, pelo fazer manual, pela aceitação do es­trangeiro que se caracteriza pelo diferente. A resistência é também insistência, o qual é construída no decorrer de um certo tempo. Recorremos às lembranças para insistir que houve passado. Ecléa Bosi reflete sobre um elogio à lembrança² e sua potência de reconstrução: “À resistência muda das coisas, à teimosia das pedras, une-se a rebeldia da memória que as repõe em seu lugar antigo” (BOSI, 1994, p.452). Assim, a resistên­cia é também insistência, de um passo à frente que corta o peso da gravidade. Será o desenho uma resistência e também insistência que recorre a memória e a lança para frente.

Notas

¹ Lambe é um modo mais coloquial para lambe-lambe, um termo usado para designar um trabalho feito em papel e colado em locais da cidade, tais como muros, paredes, tapumes. Geralmente é usado como cartaz de outdoors da mídia publicitária.

² O que foi não é uma coisa revista por nosso olhar, nem é uma idéia inspecio­nada por nosso espírito - é alargamento das fronteiras do presente, lembranças de promessas não cumpridas” (Bosi, Ecléa. Memória e sociedade: Lem­branças de velhos. São Paulo: Compan­hia das Letras, 1994. p.18)

 

[Durante o isolamento | novembro 2020]

       O local para a exposição não é mais ao alcance das mãos nem dos pés enquanto passos para se aproximar do trabalho. As mãos agora guiam aparelhos de comunicação que ocupam um espaço virtual interligando internautas que mesmo antes já os eram, embora agora os sejam em tempo quase integral.

       A exposição se adapta devido a todos os engendramentos possíveis e planejados para além de visibilizar um conjunto de trabalhos. Desta maneira, permito-me a acrescentar imagens de trabalhos que não seriam possíveis para o projeto encaminhado.

O desenho desloca-se de algum modo invisível pelas redes e chega ao alcance dos olhos. A tela é a mediadora para se chegar nos desenhos e estabelecer relações que agora ultrapassam os limites da memória do artista. O desenho possibilita, pelo brilho da tela, encontrar outras memórias. A partir de um clique chega-se em outras imagens, seja na própria exposição, seja em procurar a lembrança de um trabalho parecido de outro artista, seja no encaminhamento da exposição. De algum modo a exposição chega em outros lugares que o físico não chegaria. Todavia perdemos a possibilidade da experiência do corpo como contador de história como Walter Benjamin já previa.

       Encerro esse texto do modo que finalizei a dissertação em 2019 “No conto Sarapalha de Guimarães Rosa, o personagem Argemiro, que está adoentado de varíola, é expulso por seu amigo, que também sofre da mesma enfermidade. Ao sair caminhando, para longe de onde estava, como fugindo daquele que lhe expulsou, Argemiro caminha sem saber ao certo para onde, mas caminha para frente: “Ir para onde?... Não importa, para a frente é que a gente vai!...”³. O trabalho O caminho de volta é sempre adiante, 2018 remete à referência de Guimarães Rosa e de Samuel Beckett: “O único caminho de volta era adiante e adiante era sempre de volta”4. Será o estrangeiro aquele que não encontra o fim em sua jornada, pois mesmo estabelecendo raízes em outro local, o sentimento de nostalgia sempre lhe acompanha, tanto quanto por rever seu passado quanto pelas notícias que lhe chega aos ouvidos?

Notas

³ ROSA, Guimarães. Sarapalha. In: Sagarana. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1974.

4 BECKETT, Samuel. Companhia e outros textos. São Paulo: Globo, 2012.